sexta-feira, 13 de maio de 2016



A HISTÓRIA DA CRUZ

Referência: João: 2, 16.

Introdução

Certa vez eu estava no coletivo Central x Jardim Botânico aguardando para entrar no ônibus quando vi, sentado em frente a uma coluna, um homem deficiente embaixo de um sol escaldante numa manhã de janeiro.
Fiquei observando-o por um tempo e percebi quando uma moça bem vestida trazendo uma garrafa de suco cítrico de cor amarela, passou por ele. De imediato o homem estendeu a mão rogando que lhe desse um pouco daquele suco que carregava. Ela, porém, se esquivou e logo sumiu das suas vistas.
Meu coração apertou. Olhei para a sacola que carregava nas mãos.  Dentro dela havia iogurte, um suco gelado, além  de um biscoito recheado de chocolate.  Avisei ao companheiro atrás de mim na fila que iria logo ali e já voltava.  Fui em direção ao homem.  Abaixei-me e ofereci o biscoito e o suco.  Abri o pacote e dei na sua mão.  Ele bebeu com vontade o refresco e ficou lá se esbaldando com o lanche.
Voltei a fila ainda a observá-lo.  Entrei no coletivo e pela janela meus olhos o observavam molhados de lágrimas.  No peito um aperto enorme por saber que nada podia fazer por aquele homem.
Durante todo o trajeto até o meu destino, aquela imagem me seguiu.  Fiquei meditando sobre aquela situação, tentando encontrar Jesus ali.   Onde estava Jesus no sofrimento daquele pobre ser?  Onde se encaixava o Mestre do Amor, c omo diria o psiquiatra Augusto Cury, nessa triste e complexa manifestação da vida?
Uns nascem para sofrer enquanto outros riem, já dizia o poeta.  E nesse melodrama veremos um céu e uma Terra que por vezes chora e ri.  Por vezes cai chuva sobre maus e bons. O sol aquece “ímpios” e “santos”. Tudo acontece naturalmente como tem que acontecer.
É difícil entender que nesse exato momento milhares e milhares de seres humanos choram com dores terríveis na alma, sentem fome na carne, enlouquecidas, correm desesperadas pelas ruas das cidades procurando por algo que nem mesmo elas sabem. Estão fugitivas, perdidas pelos matagais dos imensos lugares. Outras estão nas suas mansões cheias de mordomias, luxo e riqueza.  Comem e bebem do melhor. São felizes com suas famílias e amigos. Mas já nos perguntamos o porquê disso tudo? Já nos perguntamos a opinião de Deus à respeito dessas questões?
Parece não interessar a muitos questionar isso ou qualquer outra coisa junto a Deus.  Muitos de nós tem medo de Deus. Medo de perguntar, de questionar.  Ficamos a ver Deus como um inacessível ser extraordinário, longe de nós, de nossas vidas. Pensamos que Deus não se interessa se queremos saber ou não de algo, que é excelente demais para sentar conosco e perder tempo nos explicando algo que não nos interessa saber.
Mas Deus tem ânsia que perguntemos, que questionemos, que chamemos a sua presença para dialogar.  Ele tem prazer em sentar ao nosso lado, olhar nos nossos olhos e responder a todas as nossas dúvidas.  Como um amigo que ele desejou ser de Adão e Eva, quer sempre descer ao jardim e conhecer mais um pouco de nós.  O Deus amoroso, rico em misericórdia não destruirá nossa vida simplesmente porque desejamos conhecê-lo.
Eu quis conhecer mais de Deus. Aliás, quis conhecer este Deus que a religião me dizia ser uma extraordinária criatura longe, muito longe dos meus ideais e sonhos.  Ensinou-me a obedecê-lo sem questionar coisa alguma, mas nunca me disse que ele queria o meu amor e não obediência cega.

Adão e Eva.

Os primeiros homens tinham contato direto com o Criador. Conversavam com ele, procuravam conhecê-lo e entendê-lo assim com ele as suas criaturas.  Mas no meio desse relacionamento surgiu outro personagem que não havia sido convidado. Tal personagem astutamente conquistou Eva. Fez-se mais amigável, mas abert, mais saliente. Procurou ir mais fundo no interior do homem sem respeitar a sua vontade.  Diferente de Deus, a serpente invadiu a consciência de Eva e fê-la crer em tudo que dizia.
Deus, aos poucos, amorosamente, carinhosamente procurava entender aquela criatura que criou, por isso passeava sempre pelo jardim para vê-los, conversar com eles e compartilhar daquela criação que esbanjava beleza, alegria e paz.  Mas Eva ouviu a serpente dizer coisas extraordinárias a seu respeito, elogios, exaltações. Eva se encantou. A serpente chegou dizendo que Deus era maravilhoso, espetacular, pois criara uma criatura tão linda e digna de muitos elogios, de louvor. Mas faltava algo, e assim, como persuadiu os anjos do céu, Lúcifer, personificado naquele animal, induziu a mulher a duvidar de Deus.
O grande perigo é confundir uma e outra coisa.  Questionar a Deus não é duvidar de Deus.  Não é duvidar da sua bondade, do seu amor e da sua misericórdia.  É inegável tudo isso.  Quando precisamos questionar a Deus sobre algo é pelo motivo de entendê-lo, compreender sua intenção.  Nós jamais poderemos casar com alguém sem conhecê-lo, saber suas reais intenções. Qualquer relacionamento deve haver questionamento, diálogo aberto e direto.
Ao duvidar de Deus, como Eva, nosso relacionamento se alargará, perderemos a confiança, iremos ouvir outras vozes e se não cuidarmos perderemos a presença do nosso mais excelente amigo, o nosso amor incondicional.
Deus queria o amor dos homens, por ele viria o respeito, a obediência, a confiança. Se Eva amasse a Deus verdadeiramente de toda a sua alma e de todo o seu entendimento, nunca duvidaria da sua palavra.  Ouviria a serpente e, de imediato,  correria a Deus e contaria tudo o que ela dissera.  Logo a serpente seria castigada e levada sobre si toda a maldição pelo que dissera de Deus. Ela o chamou de mentiroso, isso era notavelmente um erro terrível porque deus não mente.  Ele é a verdade desde o início ao fim.

Uma conversa com Deus

Então, perguntei a Deus: Como resolveremos essa situação? Os olhos molhados, o coração apertado, tristonho.  Mas Deus não me respondeu nada.  Claro, como poderia responder algo que já estava evidente?  Como eu poderia esquecer a história da cruz? “ Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”  (João 3, 16.) Como minha mente poderia apagar uma tão maravilhosa ação feita por Deus?
Evidentemente que Deus se importava com aquele moço largado naquela calçada do centro do Rio de Janeiro.  Claro que sentia as dores das almas, das milhares de pessoas nesse planeta. Que entendia seus erros, suas frustrações, seus medos. Por isso enviou aquele a quem nunca negou o amor pelas criaturas.  Aquele que esteve no início e por ele tudo se fez.  Foi ele quem permitiu hoje, da morte renascer o homem e quebrar todas as cadeias de sofrimento que angustiam todos nós.
Mas o que a cruz verdadeiramente quer dizer?  Ao olharmos para ela o que nos vem a mente?  Essa história é como todas as outras?  Tem início, meio e fim?

Uma cruz e uma história de sacrifício

À princípio temos de saber que a cruz é a prova irrevogável do amor de Deus por mim e por você.  Não há criatura alguma nesse planeta que não seja amada por deus e dessa forma ter o mesmo direito de estar com ele para sempre.
A história da crua começa quando Deus percebe que o homem, a quem ele muito amou, poderia não estar mais em sua presença, que sua consciência se esfacelaria por um tempo infinito. E o amor de Deus por essa consciência foi tão grande que algo deveria ser feito. Não poderiam perder essa criação livre e dotada de pensamentos e desejos distintos.  Criação que tinha dentro de si, o sopro do seu Espírito, guardado e manifestado para um crescente relacionamento verdadeiro, aberto e puro.
Todos os dias temos que tentar compreender a Deus e estar aberto para fazê-lo também nos compreender. Deus não é um ser que fica o tempo todo sentado num trono dando ordens e recebendo glória. Deus é um ser que passeia, conversa, abraça, faz carinho, chora junto, ri junto e sobre conosco.
Por muito tempo eu via Deus como João descreveu em Apocalipse: sentado num trono rodeado de anjos recebendo glórias.  Eu esquecia do Deus que passeava no jardim do Éden, que conversava face a face com Moisés, que limpava os pés dos discípulos, que os abraçava e se alimentava com eles. Que recebia no ombro a cabeça carinhosa e carente de João. Jesus era Deus conosco na Terra. Ele disse que estava no pai o pai nele quando o discípulo pediu para ver Deus.  Ele era o próprio Deus em carne. 
João descreveu um momento de Deus. Não quer dizer que o tempo todo ele esteja a li naquela posição.  Que não venha até nós e nos abrace e se mostre pai amoroso e carinhoso.

Um homem, uma cruz e um sacrifício.

Nessa história a cruz se apresenta como inevitável. Através dela Jesus pisaria a cabeça da serpente. Deus disse: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gênesis 3:15) Ao longo dessa trajetória Deus levou o homem a entender o que seria esse sacrifício.
O que teria a ver um homem ser cravado numa cruz assim como tantos outros malfeitores naquela época? O que isso mudaria no planeta e fora dele?  Primeiro que este homem nada mais era que o Criador do universo. Este Criador se tornaria criatura e como criatura perderia temporariamente seu poder e soberania. Estaria a mercê da morte, sentiria fome, sede e paixões como todos os homens na Terra.
Jesus dependia exclusivamente de Deus. Se Deus não o cuidasse morreria antes do tempo, como tantas vezes quiseram matá-lo. Então, Deus em Jesus perdeu, aqui na Terra, sua glória, seu poder, se fez carne, maldição por todos nós.
Antes da cruz os pecados eram extirpados com sacrifícios de animais para que o homem entendesse  o valor do sacrifício.  Isso foi feito pelo tempo necessário para entendermos o amor de Deus. Ele explicava que tínhamos uma natureza corrompida, devido a isso precisávamos fazer algo para nos achegarmos a ele, que é incorruptível.
Não temos culpa de Eva ter errado, duvidando de Deus e perder a incorruptibilidade. O Senhor não nos culpa. Tanto é que entendendo isto Deus arquitetou o plano para nos livrar dessa maldição que nos sobreveio antes mesmo que tivéssemos conhecimento de tudo.  Assim começo a história da cruz.

Deus na Terra

Jesus nasceu do sopro direto do Espírito Santo.  Por ser filho de Deus não poderia vir de espermatozoide humano ou Deus se relacionar carnalmente com uma mulher porque deus é Espírito.  Para tanto Deus escolheu um ser humano íntegro na sua alma, puro no seu coração e limpo no corpo para trazer do céu à Terra o seu filho.
Então, cumpriu-se a profecia. Ele veio e desenvolveu a história da cruz: conheceu as dores, a tristeza, as angústias e as confusões humanas.  Andou conosco, se alimentou do fruto da Terra, cansou como cansamos na carne, provavelmente foi infectado por algum vírus e adoeceu, sentiu febre, calafrios, dor de cabeça.

À caminho da cruz

Jesus, à caminho da cruz, falou de amor e de perdão. Compartilhou seus sentimentos conosco, chorou ao nosso lado, nos levou ao entendimento do sacrifício.  Fez-nos entender que era por amor que tudo aconteceria. Não era um homem qualquer que seria crucificado. Era o Criador de todas as coisas.  Sem culpa, sem erro, sem maldade alguma.  Era preciso que o céu e a Terra vissem ele se desprender da sua majestade, do seu poderio, se humilhasse diante de todos os anjos, de todos os principados, de todos os filhos de Deus em todo o universo para jamais negarem, durante toda a existência, que ele amou, ama e faz de tudo que for possível e impossível, na sua retidão, bondade, justiça e misericórdia, por este ser chamado homem.
E aconteceu que aos trinta e três anos de Cristo na Terra, ele rendeu-se a mim e a você.  Não foi a Satanás, nem aos anjos caídos com ele que Jesus se entregou humilhado e maldito. Foi a mim e a você. Com amor incompreensível, inigualável e ilimitado. Aceitou que o universo, inclusive os anjos rebeldes, o vissem tornar-se maldição numa cruz de madeira e levar sobre si a culpa que herdamos de Adão e de Eva e tornar-nos como ele e  o pai são: eternos.
Tudo parou nesse episódio.  E quando digo tudo, me refiro a toda  existência.
Mateus 27, diz: “E abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos que dormiam foram ressuscitados; E, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos.” Como prova de que este episódio abalou tanto o céu quanto a Terra. E, logo, que ressuscitara Jesus finalizou a história da cruz afirmando: “É-me dado todo o poder no céu e na terra.” Mateus: 28, 18.
A partir daí tudo que era sujo, limpou-se, tudo que era treva, tornou luz, onde havia morte, chegou a vida.
Quando lembro daquela situação na Central do Brasil tenho outro entendimento com relação a posição de  Deus. Hoje eu entendo a dor dele não como de um ser humano para outro na carne, mas como um irmão , porém, sabendo que a mesma herança a mim dada pertence a ele, pois Cristo conquistou “às duras penas” esta graça para nós. Talvez através daquele pacote de biscoito de chocolate e suco natural gelado, ele tenha recebido a visita do Espírito de Deus, que me levou até ele e compreendido a respeito da herança a qual lhe pertence antes mesmo dele nascer. Provavelmente tenha ocorrido isto, pois o amor de Deus extrapola o raciocínio humano. Ele quem nos conduz ao bem. Tudo de benevolência vem das suas mãos para que não nos gloriemos, então, caminhando comigo até aquele homem o Espírito de Deus tocou o seu espírito e lhe mostrou que nesta Terra a bondade e a misericórdia do altíssimo alcança a todos, acendendo luz nas trevas e superabundando graça onde abundou pecado.
Quem me fez sentir a sua dor e compadecer de sua fome e sede foi o amor de Deus que está acima da minha arrogância, pretensão e soberba.  Quem me fez perguntar a Deus sobre aquilo foi ele próprio. Houve uma reação da parte do Senhor aos meus olhos que avistaram a cena.
Será que de mim mesmo perguntaria ao homem de amor se ele se importava com aquele pobre? Será que de mim mesmo perguntaria: o que faremos?
Por certo não!
O Criador de todas as coisas endurece corações assim como amolece-os e conversando sobre nós mesmos nos mostra ou nos abre os olhos para entendermos quem ele é.  Para conhecermos os seus sonhos e ele os nossos e darmos continuidade ao nosso relacionamento com ele, interrompido por uma serpente.
Agora a cabeça da serpente foi esmagada.  Nada impedirá que namoremos e casemos com o nosso Criador e vivamos felizes para sempre.

Olavo Vieira. (30/01/2016) São Cristovão.