sexta-feira, 18 de março de 2016

A HOMOSSEXUALIDADE É PECADO?


Referências: Levítico 18, Romanos 1, Mateus 19.

Introdução

“Com varão te não deitarás, como se fosse mulher: abominação é.”
Este versículo é comumente usado para explicar que a bíblia condena a homossexualidade (o relacionamento de uma pessoa com outra do mesmo gênero sexual).  Nesse caso Levítico adverte apenas o sexo masculino, mas em Romanos já indica o feminino também.
Ao interpretar as Escrituras Sagradas é preciso atentar para o contexto histórico: época em que foi escrito, por quem e com que intenção.  Não se pode tomar como literal versículos isolados, frases, trechos de qualquer natureza textual sem verificar o todo, pois qualquer texto tem seus fundamentos históricos e para cada época ele vai ser visto de modo diferente.  Um texto, um livro escrito no século XVII não poderá influenciar categoricamente na realidade do século XXI.
Muitos pregadores, sejam pastores evangélicos ou padres, destacam trechos isolados da bíblia e muitos através deles criam até doutrinas, inclusive novas denominações. Porém, os princípios bíblicos são imutáveis. Não há questionamentos quanto a eles. A lei é uma só. Ela não muda.  No entanto, baseados nesses versos isolados, fora de contexto, tais pregadores afirmam que Deus ou a bíblia, como gostam de falar, condena o relacionamento de pessoas com mesmo gênero sexual.  Dizem que diante de Deus isso é abominação, assim como o é a idolatria.

1) – Uma história real

Nos Estados Unidos houve um caso de um jovem cristão-evangélico presbiteriano considerado homoafetivo que vivia atormentado devido ao fato de sempre ter se considerado homossexual, mas não se aceitar porque acreditava ser “pecado”, segundo a religião havia lhe ensinado.
Ao completar a maioridade, assume perante a família sua tendência homoafetiva e a partir daí passa a viver um inferno existencial, pois sua mãe começa a atordoá-lo na esperança de sua cura. Escreve frases e versículos bíblicos em toda pare por onde  o rapaz passava dentro de casa: na porta do seu quarto, do banheiro da geladeira. No espelho, dentro de gavetas.
Aonde ele ia (dentro de casa) avistava um versículo que remetia a sua tendência homossexual, com a intenção de fazê-lo entender que o que sentia era errado diante de Deus.
Com um tempo o rapaz começou a se perturbar, discutia frequentemente com a mãe e decidiu sair de casa. Dessa forma achava que os problemas diminuiriam, mas ele tinha profundo amor pela mãe, pela família e se achava confuso em sentir o que sentia, pois os ensinamentos que havia tido eram contrário aos seus sentimentos. As palavras que sua mãe lhe diziam confundiam sua mente. Realmente ele era um doente? Estava pecando diante de Deus?
Para qualquer ser humano palavras de desânimo são suficientes para desenvolver crises existenciais.  A todo o momento o rapaz ouvia que tinha que mudar seus sentimentos.  Deus abominava o que ele sentia.
Perturbado com tudo aquilo, confuso com essa questão: se é pecado ou não sentir-se atraído por uma pessoa do mesmo gênero sexual, ele se atira de uma ponte aos 20 anos de idade em Portland, Oreon para onde havia se mudado longe dos pais.
Desesperada a mãe perde a razão, passa a se sentir culpada de sua morte ao descobrir em suas coisas um diário em que o menino descreve abertamente o seu sofrimento com tudo aquilo. Fala do amor que sente pela mãe e do modo como ela insiste em convencê-lo do horror dos seus sentimentos que ela afirma não ter controle e de como isso não lhe faz mal, porém a insistência de sua mãe em condená-lo lhe destruía pouco a pouco.
Nesse diário ele diz ter visitado uma igreja que não pensava como as outras, que tinha outro modo de ver essa questão da homoafetividade. A mulher, então, decide visitar tal igreja e lá encontra um pastor com quem passa a travar diálogos a respeito do filho. As explicações do pastor convencem a mulher de que estava totalmente errada, mas que não deveria se sentir culpada pela morte do filho, mas tomasse isso como um aprendizado.  Ela, então passa a defender as pessoas homoafetivas nos Estados Unidos contando sua história em um livro chamado: “Prayers for Bobby: A Mother's Coming to Terms with the Suicide of Her Gay Son”, em 1995, com anotações do diário do rapaz.  Ela se chama Mary Griffith e o rapaz Bobby. O livro virou filme sobre o título Orações Para Bobby em 2009 nos Estados Unidos.

2) – Uma questão ideológica.

Este caso e milhares de outros que ocorrem é decididamente complexo.  Cada família tem seu modo de ver o mundo e, assim, ensinam-se uns aos outros, baseados nas crenças, costumes e religião.
Desde que o mundo é mundo que as famílias se organizam criteriosamente fundamentadas em suas ideologias. A junção dessas famílias forma a sociedade que por sua vez está baseada na ideologia de tais famílias.
Não é diferente na bíblia.  Quando os textos bíblicos foram escritos levou-se em conta o modo de pensar da época, o modo de ver o mundo organizado naquele período.  Muitas coisas que hoje são aceitas na época de Paulo, o apóstolo, por exemplo, seria escândalo. Ele mesmo diz que as mulheres deveriam ficar caladas na igreja, remetendo a ideia da mulher não exercer cargo eclesiástico dentro das igrejas.  E tantas outras questões de fundo ideológico, cultural que permeiam as sociedades de cada época.
Quando se usa Deus para fundamentar isso é onde ocorre o perigo. Temos inúmeros exemplos hoje de denominações que, baseadas na sua interpretação da bíblia, criaram doutrinas simplesmente sob questões ideológicas, culturais que se firmam como verdades absolutas.
Umas pregam a Vida Abundante, outras defendem a guarda do sábado, umas creem na predestinação, as pentecostais afirma os dons de línguas serem de anjos e o falar essas línguas sem sentido algum, garante a espiritualidade do indivíduo batizado no Espírito Santo.
Todas elas usam a bíblia para confirmar suas crenças, suas ideologias. Pretendem convencer outros das suas ideias remetendo a Deus as revelações dessas ideias.
É preciso muito cuidado quanto a isso, pois milhares e milhares de almas estão em jogo. Não se pode tomar em nome de Deus como se assim ele pensasse.  A bíblia diz que os nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus e vice-versa.


3) – Um momento histórico.

As leis mosaicas por vezes foram impostas visando o controle social, pois os seres humanos naquele período que não tinham noção de humanidade como temos hoje.  Podemos até afirmar que Deus o orientava quanto a isso, respeitando os pensamentos das pessoas e seus sentimentos naquele momento da história humana, porém, hoje vemos que muitas leis são arbitrárias, exageradas e até desumanas. Mas para aquela época não eram. O pensamento humano era outro.
As guerras matavam milhares de pessoas entre crianças e jovens. Invadiam-se cidades, queimavam-se casas, destruíam-se lares. Acabava-se com sonhos e projetos de vida. Diz a bíblia que muitas dessas guerras era propósito de Deus. Um dos grandes vitoriosos nessas lutas foi Davi, que dizem as escrituras, num só batalha matou dez mil.
Assim podemos ter noção de que os seres humanos, em cada período da história do planeta Terra, tinha seu modo de ver o mundo ao seu redor.  E com um tempo o raciocínio humano foi se desenvolvendo, tendo noção de civilidade. Como exemplo podemos anotar uma pessoa que nasce e cresce no interior, vive os costumes daquele local e seu raciocínio vai ser limitado as coisas que enxerga naquele espaço.  Muitas vezes a religião influencia todo o comportamento da pessoa e a torna com hábitos diferentes das que não vivem naquele ambiente e mais que hábitos, as ideias e ideologias fortificam pensamento que vão passando de geração a geração.
Em oposição, pessoas que crescem na cidade grande veem o mundo de vários ângulos, com uma mente mais aberta. Consegue lidar com várias questões, discuti-las e respeitar o espaço alheio. Óbvio que temos exceções, em que pessoas ditas civilizadas se comportam como “homens das cavernas”, tem a mente fechada mais do que as que vivem nos interiores das cidades, mas é evidente a diferença de consciência entre um e outro, principalmente quando a educação das letras se faz presente.  O ser humano passa a entender o mundo de um modo diferente, amplia seus horizontes, compreende situações, antes incompreendidas e faz juízo sem hostilidade.
Na época dos nossos avós uma menina de treze anos podia se casar com um homem bem mais velho que ela. O casamento arranjado pelos pais era muito comum e eles não viam problema em uma criança de treze anos manter um relacionamento com um homem mais velho.  Hoje a lei (brasileira para exemplo) diz que a conjunção carnal de um adulto com uma criança de treze anos é crime, estupro de vulnerável. Mas na época de nossos avós crianças de treze anos se relacionavam (casavam) com adultos sem implicância judicial. Não se constituía crime de estupro.
A mentalidade das pessoas foi mudando, começou a se perceber que era desumano permitir uma criança, ainda com o corpo e a mente em formação, o coito com um adulto de corpo e mentalidades formadas. Foi havendo uma conscientização que nessa idade a criança tem que estudar, se divertir, viver o fim da sua infância formando um caráter próprio, baseados nos princípios familiares dentro do lar com pai e mãe. O casamento passaria a ser aceito numa idade mais avançada quando estivesse mais madura.
Então, em cada período da história vemos o homem buscando resolver-se, aprendendo um com o outro. Percebendo o sofrimento e através dele sensibilizando-se para amenizá-lo, transformando o mundo um lugar mais digno para todos.


4) Analisando Levítico e Romanos.

Levítico é o terceiro livro de Moisés. Através dele o ser humano tomou ciência de vários deveres junto a Deus e aos outros.  Várias leis foram impostas para o bom convívio entre as pessoas desde questões espirituais a de saúde do corpo.  Entre elas o livro aborda o relacionamento sexual entre as pessoas e no capítulo 18 vai proibir o homem (sexo masculino) de se relacionar sexualmente com outro dentre outras proibições.
Naquela época algo detestável para os monoteístas (crença num único Deus) era adoração a deuses que não fosse o Deus Javé.  Muitas pessoas, porém, se metiam a venerar outros deuses e durante os rituais praticavam todo tipo de imundícia, condenado pelos profetas. Cita-se o coito com animais, pessoas do mesmo sexo, para exaltar uma divindade diferente da ensinada pelos profetas.
Vendo essa abominação evidentemente o líder condenava tais práticas, ainda mais pela falta de entendimento na época do que seria sentir atração por uma pessoa do mesmo gênero sexual, visto que sempre fora ensinado que Deus criou macho e fêmea para procriar e encher a Terra.  Então, passou-se a fazer alusão a homoafetividade com abominação.
Paulo escrevendo aos Romanos no capítulo 1 exorta-os quanto a este assunto no mesmo contexto da idolatria, ou seja, Paulo via que as pessoas para adorar outros deuses mantinham este tipo de relação despudoradamente sem o menor respeito por seus corpos e sabendo que a lei os condenava, por isso disse: “(...) recebendo em si mesmo a recompensa que convinha ao seu erro.”
Muitos acham que esta fala alerta para o castigo que recebiam exatamente por praticarem a homossexualidade e todo aquele que se relaciona com pessoas do mesmo gênero sexual levará sobre si o castigo de Deus também.  Mas o apóstolo se referia à lei, lá no início.  Ela tinha o castigo pra quem praticasse a homossexualidade e quem fazia sabia da lei e do castigo que teria, ou seja, a recompensa para esse erro.
Paulo ensinava o que tinha aprendido na lei em relação às práticas sexuais feitas desordenadamente em favor da idolatria, pois as pessoas dessa época começaram a idolatrar seus próprios corpos, os corpos uns dos outros. Entregaram-se “as paixões infames”
A bíblia refere-se ao nosso corpo como templo do Espírito Santo, que deve ser cuidado contra à prostituição e qualquer tipo de crime cometido nele é prostituição. Era sobre isso que Paulo alertava. As pessoas não se importavam em proteger seu corpo. Relacionavam-se umas com as outras sem compromisso, se aproveitavam dos corpos dos outros para obter somente prazer momentâneo e muitas delas nem eram homoafetivas, mas teimavam em se relacionar dessa forma.
Nos versos seguintes a índole de tais pessoas é descrito confirmando a imundícia de suas atitudes perante Deus e a sociedade da época. O que estava em evidência não era o relacionamento homoafetivo se praticassem com respeito e dignidade, mas era a imundícia e o desrespeito que havia dessas pessoas para com Deus e consigo mesmas.


5) – Jesus faz uma alusão a homoafetividade.

Esse é um assunto a ser analisado com cautela, com profundidade, respeitando o sentimento de cada pessoa, porque muitas delas não escolheram ser homoafetivas, apenas o são e o impacto dessa descoberta pode causar traumas irreversíveis se não for tratado com respeito e dignidade, visto a suposta “inaturidade” da situação. Algumas foram molestadas na infância, outras adquiriram desejos por convivência no meio social, outras já nasceram assim.
As que no ventre da mãe desenvolveram a homoafetividade conseguem entender-se assim, pois desde sempre o foram. Mesmo não tendo escolhido ser.  As que foram abusadas na infância e desenvolveram o desejo pela pessoa do mesmo sexo tem dificuldades de se aceitar visto que sua natureza sentimental não é esta. Para estes há de ter um processo profundo de cura interior.
Torna-se erro relacionar-se com pessoas do mesmo sexo puramente pelo desejo do corpo como faziam as pessoas na época bíblica citadas em Levítico e Romanos.  Mas como explicar isso para uma sociedade religiosa como a nossa? Jesus explicou para os discípulos exatamente como se procede a homoafetividade em Mateus 19 quando ensina sobre casamento e divórcio.
Eles, que provavelmente, tinham aprendido na lei que era abominação aos olhos de Deus, ouviram Jesus dizer que uns nascem assim, outros a sociedade os faz e outros mais decidem viver sem praticar sexo para andar nos preceitos do Evangelho.
Ao final de sua palavra ele alerta: “Quem pode receber isso, que o receba.” Ou seja, quem puder entender que há pessoas que não casarão como se casam pessoas comuns na sociedade daquela época (casamentos heterossexuais) porque nasceram com tendência homoafetiva, outras desenvolveram depois de nascidas devido a algum fato e tem de viver daquela forma e outras não casarão porque preferem entregar-se a Deus, como é o caso do apóstolo Paulo.
Naquela época os eunucos poderiam ser considerados os homossexuais.  Eram homens castrados que não mantiam, por isso, relações sexuais. Jesus explicou seu caso e foi mais a fundo lá no ventre da mãe que gera filhos. Para quem puder entender não há sombra de dúvida que a homoafetividade não se constitui pecado diante de Deus se houver um relacionamento sadio, puro e santo, porém, qualquer tipo de imundícia, prostituição, seja hetero ou homossexual é pecado.


6) – A natureza de Deus criou ramificações.

No início Deus criou macho e fêmea.  Era para ser assim a relação “natural” entre as criaturas formadas.  Homem com mulher e nada mais. Tudo era perfeito. A Terra era perfeita. Mas o capítulo 3 de Gênesis mostra que a mulher acredita nas palavras da serpente e acontece a queda do homem.
Daí em diante na natureza algo acontece: ela cria ramificações. O que era para ser perfeito perde a perfeição, o homem e a mulher recebem a disciplina de Deus. Os animais que não machucariam os homens passam a oferecer perigo, porque o ser humano agora é mortal.  As árvores, se cortadas, podem não nascer mais, as flores criam espinhos que espetam e machucam.  Os animas tornam-se ferozes e atacam quando ameaçados.  Relâmpagos e raios podem cair na Terra e atingir seres viventes.  Doenças e pragas são uma realidade agora.  A morte do corpo é inevitável.
Uma natureza que era perfeita se ramificou. Foi estendida além do limite imposto no início da criação.  O jardim do Éden ficou para trás. O curso natural seguiria seu rumo na Terra e Deus se manifestaria apenas pela vontade do ser humano quando este permitisse.
Muitos alegam que a homoafetividade é pecado, porque Deus criou macho e fêmea.  Alguns até ironizam: “Deus não criou Adão e Ivo”, afirmando que se fosse para homem (masculino) se relacionar com outro homem (masculino) Deus teria criado Ivo e não Eva, porém, é preciso entender que obviamente o natural era para ser macho e fêmea se relacionando se a natureza não tivesse criado ramificações depois da queda do ser humano.  Não nasceriam hermafroditas, nem homoafetivos, tudo “seria perfeito.”
A pergunta é: Devido a isso os homoafetivos precisam ser condenados e excluídos da herança porque nasceram do curso natural da Terra depois da queda homem?
Na verdade o que precisamos entender é que Deus não condena, não exclui os homoafetivos, quem faz isso é a Religião.  Ela comanda a sociedade desde os tempos remotos, controla seus pensamentos e ações através de ideologias criadas por uma minoria.
Infelizmente através dessas ideologias a Religião tem impedido de muitas almas se achegarem ao reino dos céus. “Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem sobre os ombros dos homens” (Mateus 23), dificultando muitas vidas a terem um encontro verdadeiro com Jesus, o autor e consumador da fé.  Mas graças a Deus que a verdade traz luz no meio das trevas e como no Mito da Caverna, o homem sai da escuridão, de onde via a vida através de sombras e conhece o mundo real feito para todos nós, independente de sua natureza. Todos tem o direito a herança que Jesus conquistou na cruz e ele não faz acepção de ninguém.  Aceita todos de igual modo e os ensina a amar. No reino dos céus não há sexo feminino nem masculino, há almas que reinarão para todo o sempre com o Criador.
Quando todos nós entendermos isso a Religião não mais controlará nossa mente e aceitaremos que heterossexuais e homossexuais (ou simplesmente almas) são filhos com total direito a herança e, assim, como o são, tomarão posse dela brevemente.  Todos serão um só, um só corpo e Cristo, o cabeça.
“Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem e os homicidas, e os idólatras e qualquer que ama e comete a mentira.” Todos os outros estarão dentro do reino dos céus.
                        Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.” (Apocalipse 21, 8)

O. V. – Janeiro de 2016.
 São Cristovão Rio de Janeiro.