quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Um conto com carinho


Abracei-o.   Sobre meu peito sua cabeça recostada.  Afaguei com carinho seus cabelos.   Sentia-o tão próximo de mim, como fazendo parte da minha vida para sempre agora.
Eliana estava no banco ao lado, nos olhando e procurando compreender um amor tão grande.  Meus olhos derramaram lágrimas quentes e escorreram sobre seu cabelo.  Eliana percebeu.  Estendi a mão. Ela tocou suavemente e sorriu, meio sem jeito.  Havia um gesto de agradecimento no seu olhar, um pedido de desculpas por duvidar do carinho que por ele eu tinha.
O ônibus deu a partida.   Seguiu lentamente. Os olhos dele percorriam a paisagem.  Deixava para trás os seus amigos, a sua família para viver uma nova vida em que eu faria o possível para fazê-lo feliz.  Sorriria para ele todos os dias, o acordaria com um bom dia e um abraço apertado, como se fosse sempre o último.  Lhe diria que o amo e como sua presença fazia diferença na minha vida.  Sem ele o sol parecia não brilhar muito e o cheiro das rosas e dos perfumes enojavam minhas narinas.  A lua não iluminava meus sonhos e a brisa da noite não refrescava meu rosto.
Ao seu lado percebi o sol brilhar tão intenso que era capaz de me tornar uma estrela.  As rosas exalavam perfumes de primavera e inebriava meu coração. Os perfumes inundavam os cômodos da minha alma e os becos do meu espírito.
A noite é o momento mais esperado, traz uma brisa tão suave e límpida. Transpassa meu rosto e parece incomodar meu coração.  Essa brisa traz também o cheiro dele e dos nossos momentos vendo as estrelas.  Meus sonhos são iluminados pela luz branca do luar.
Abraçado a ele naquele ônibus, senti que minha vida mudaria.   Era real e não mais um sonho.  Há quanto tempo acordava pela madrugada da minha vida encantado, entusiasmado, extasiado e desejoso de tudo aquilo acontecer. 
Quantas vezes o pranto foi meu único escape nas noites solitárias no meu quarto silencioso, ansiando que alguém especial, projetado nos meus sonhos, surgisse na realidade e me fizesse feliz.  Mas cada vez que o tempo passava isto se tornava mais difícil.  Procurei-o nas letras das músicas, nos cheiros das flores, nos olhares e sorrisos. Nos projetos de vida, nos amores.
Quando tudo parecia o fim.  Quando meu coração se fechara e eu desisti de amar alguém ele se revelou numa tarde de sol quente.  Me fez enxergar o mundo e os meus sentimentos de uma forma diferente. Me fez sentir meu amor como nunca sentira antes.  O seu carinho inocente e seu amor incondicional me despertaram de um sono indolente.  Me fizeram ressurgir das cinzas.
No caminho, quando via algo diferente, apertava minha mão e me chamava: “Olha, olha que legal”.  Corria o olhar pela janela vislumbrando a paisagem.  Debruçava-se sobre meu peito, roçava o cabelo no meu queixo e se acomodava como uma pérola numa ostra.  Sentia-se protegido, seguro.  Meus braços eram mais que segurança, eram conforto, aconchego.  Um Oásis.
Eliana percebia que sua decisão foi certa.  O filho seria feliz.   Havia provado por diversas vezes o quanto ele significava para mim.  Dividiríamos uma vida juntos, os três.  O sonhos de ser feliz acontecia a cada momento.  Ali ao lado dele cada minuto representava uma grande alegria, uma festa interior. Nenhum amigo, em nenhum momento da minha vida, me fez tão feliz, tão realizado, tão digno. 
Aquele dia foi o início de uma vida feliz que eu vivi até hoje.  Somos mais velhos.  Ele já não tem mais nove anos.  Eliana se arrasta pela casa com sua velhice estampada na carne.  Eu estou aqui deitado nesta cama.  Viajamos, passeamos, rimos, choramos, sofremos, nos abraçamos, lutamos, trabalhamos e envelhecemos juntos.
Daqui a pouco ele chega com aquele olhar insuperável, aquela energia que nos faz sentir a melhor pessoa do mundo.  Vem me dizer adeus, pois estou partindo.  No outro mundo quero reencontrá-lo do mesmo jeito que o conheci aqui na Terra.  Com aquela inocência e pureza de um menino e perpetuar nossa amizade.
Nunca amei amigo como o amei e agora que partirei não amarei mais outro.  Não me arrependo de nada que fiz por ele, só de não ter feito antes. O relato desta despedida deixo para ele escrever porque nunca consegui segurar as lágrimas e resisti a dor de deixá-lo e seguir sozinho.

O. V. 9 de março de 2010

A SÉTIMA CARAVANA


O convite


Fui enviado em uma missão para Catalão, uma cidade perto da fronteira do Brasil e outros países como Paraguai e Argentina.
Um lugar exótico, cheio de árvores, pouquíssimas casas e um vasto terreno pantanoso.  De noite Catalão parece mais um purgatório, descrito pelos antigos cristãos como um lugar de tormento para expurgação dos pecados para então herdar o paraíso.  De dia nada mais é do que um deserto quente e pavoroso. E exatamente neste ambiente que o Ministério Portas Abertas me enviou para pregar.
De início eu me assustei.  Sabia perfeitamente como era Catalão, pois muitos irmãos nossos foram enviados para lá e as notícias que chegavam aos nossos ouvidos era que o lugar cheirava a sangue. 
O missionário Ricardo Antunes estivera residindo neste macabro reino de Satanás.  Orava fervorosamente três vezes ao dia, pois as forças demoníacas imperavam por toda a região. Diversas vezes ele ouvia ranger de dentes, uivos e grunhidos ao redor da casa onde morava.  Com ele foram mais três missionários.  Tatiana Suarte, Paulo Macario e  Elen Silveira.  Todos eram homens e mulheres de Deus.  Dos quatro voltou apenas Ricardo. 
As mortes se destacaram pelas horripilantes cenas mostradas num jornal local em que cada um foi submetido a terríveis rituais espirituais. Ao lado do corpo de Tatiana foram encontradas velas vermelhas, um punhal em forma de cruz e suas mãos estavam amaradas para trás e pés juntos pregados com um prego enorme. A bíblia aberta no salmo 91. Paulo estava pregado num madeiro feito de pedaços de troncos de uma árvore muito conhecida na região.  Nu, seu órgão genital não fora encontrado e na sua barriga estava escrito com sangue: “Não temerás espanto noturno”. 
A linda Elen Silveira, uma gaúcha de olhos verdes e cabelos loiros estava deitada numa pedra em forma de cama a frente de uma estátua de caveira e tudo indicava que ali era um local de rituais diabólicos.  Seu sangue escorria por uma fresta da pedra, descia para um buraco no chão.
Ao investigar descobriram que haviam várias aberturas pequeníssimas que levavam para covas onde pessoas foram enterradas, normalmente líderes religiosos da região como feiticeiros, pais e mães-de-santo.
Tudo isto me aterrorizou.  Fiquei vários minutos encarando o pastor pensando numa melhor desculpa pra dizer não a esta missão.  Mas nem tudo acontece como queremos.  Eu estava num início de namoro.  Na verdade paquerando ainda.  Há tempos não sentia atração por uma jovem.  Ela parecia exatamente a mulher perfeita.  A mulher dos meus sonhos.  Não a deixaria pra outro conquistar. 
Sorri, meio sem jeito.  Disse ao pastor que não iria. Mesmo sentindo que estava preparado.  O olhar sério e centrado dele indicou que eu não estava fazendo a coisa certa, mas não insistiu.  Disse que eu sabia o que era melhor pra mim.  Deus, no momento certo tocaria meu coração, mas eu queria que isso nunca acontecesse. Não desejava aquele lugar para pregar.  Achava que a cidade deveria se virar com os missionários que lá estavam.
Catalão era o local de terror espiritual na América Latina. Lugar onde as maiores autoridades espirituais da maldade se reuniam para trabalhos de magia contra reinos e governos do mundo, e por isso a urgência em converter aquele povo.  Entre os 10 mil habitantes, apenas 500 seguiam o evangelho. Eram pessoas medrosas.  Viviam escondidas em suas humildes casas e templos improvisados com medo das ameaças dos feiticeiros.  Vez por outra aparecia um morto de forma mais estranha.
Contam de uma senhora morta em cima da cama com a barriga inchada e a pele amarelada. Dizem que da sua boca saíam besouros nunca encontrados na região. 

O casamento

Um ano depois da minha conversa com o pastor, me casei com Adrielle Figueiredo, que agora se chamava Adrielle Figueiredo Rocha.  Nos casamos no cartório de Paracambi, cidade onde ela morava.  A cerimônia foi simples realizada na igreja. Viajamos para Petrópolis.  Ficamos num pequeno hotel da cidade por três dias. 
Adrielle era a mulher ideal pra mim. Calma, sincera, firme e dedicada.  Não falava nada sem antes pensar primeiro.  Seu sorriso eclodia numa junção de ternura e sedução.  Ao mesmo tempo que era meiga como uma criança era sensual como uma mulher. Eu a amava muito.
Naquela primeira noite no hotel tive uma revelação estranha.  Estava de pé num local parecido com uma arena.  À minha frente havia um grupo de jovens negros, todos de preto e olhar maldoso.  Do meu  lado via Adrielle e outros jovens .  Parecia uma luta do bem contra o mal.  E era.
Das minhas mãos saíam raios e som de trovões.  Eu seguia na frente para enfrentar aqueles homens.  Cada um de nós lutava com um deles e por fim vencemos com a fuga de todos para o pântano ao lado.  Acordei meio eufórico.  Sentei na cama e vi Adrielle dormir um sono tranqüilo.  Pensei: “Amor, eu desejava sempre esse sono tranqüilo pra você,mas acho que teremos que lutar.”
Eu sabia o que estava por vim.  A luta não era só minha.  Minha esposa viria comigo.  Embora ainda não me sentisse preparado sabia que Deus planejava minha viagem para aquele terror.  O mundo precisava da minha coragem, da minha bravura.
Daquele lugar saíam as mais terríveis ordens satânicas para derrotar a Igreja de Cristo na Terra e causar conflitos entre povos. O momento chegou.  As forças malignas de Catalão precisavam se desfazer.  Jesus precisava chegar aquele lugar de vez.  Fincar seu poder na vida daquelas pessoas usadas pelo mal.  Missionários enviados para lá lutaram bravamente.  Converteram almas, mas foram engolidos pela morte da carne antes de concretizarem o fim da missão.  Eu era a Sétima Caravana. As outras seis e realizaram sua missão, agora era a minha vez de mostrar que existe apenas um poder sobre a Terra e este poder está nas mãos de Jeová.

A Caravana

Do lado direito do pastor estava eu, Adrielle e Ana Beatriz, uma negra de um metro e oitenta de altura, com um porte de lutadora de boxe. Seu sorriso esmorecia toda aquela grandeza de mulher.  Sua voz mansa descrevia uma simplicidade e pureza indescritíveis.
Ana fora, por cinco anos consecutivos, líder infantil.  Levou crianças a experiências sobrenaturais com Deus. No último ano estava se preparando para realizar sua primeira missão e nem imaginava quão difícil seria.  Do lado esquerdo André era só sorriso, brincalhão, divertido fazia piadas com as mais simples palavras do pastor.  Destacava-se por sua maneira excêntrica de pregar e evangelizar.  Esteve a frente do grupo de evangelismo durante três anos e a um estava no Colégio de Preparação Missionária do Ministério Portas Abertas.  Era colega de classe de Ana Beatriz. Casara-se aos 20 anos de idade. Perdeu a esposa um ano depois vítima de câncer. Agora aos 26 anos não pretende casar e sentiu um desejo profundo de evangelizar nações. Catalão será sua primeira e inesquecível experiência.
Do seu lado Edna Cristina só não pode ser considerada o oposto pelo simples fato de acreditar no mesmo Deus, pois sua fisionomia fechada indicava uma seriedade acentuada, mas no fundo era dotada de uma alegria estonteante, só demonstrada raramente nos encontros de jovens.
Seu cabelo liso estava amarrado para trás com uma liga vermelha.  Aliás, ela sempre usava o cabelo assim. Era sua identidade pessoal, além da seriedade, é claro.
No meio da reunião surge um jovem que eu nunca vira no Ministério Portas Abertas.  Talvez pertencesse a alguma filial, mas incrível, eu conhecia todos os jovens de todas as dez filiais e não esqueço fisionomia, embora nada demais chamasse a atenção nele, a não ser o rosto infantil que lhe dava uma noção de idade entre os doze e quatorze anos e não era exagero, pois os meninos nessa idade têm a sua altura e o rosto suave, limpo.
No começo eu pensei ele ter entrado na sala errada ou veio dar um recado ao pastor, mas sentou-se na cadeira ao lado de Edna, meio sem jeito, se desculpando pelo atraso.  Não houve retorno por parte de nenhum de nós ao seu pedido e o pastor continuou. O olhar atento daquele menino de vinte anos me causou curiosidade. A cada frase ele parecia formular ideias na sua cabeça, e de fato, o fazia.  Era de uma inteligência tamanha que sua presença na Caravana foi primordial.
Estava formada. Três homens e três mulheres.  Decididos a mudar o quadro daquela pequena cidade. O que enfrentaríamos não estava descrito em nenhum manual de missões.  Nosso guia era a bíblia e nossa frase de apoio era: “Não temas”.  Assim seguimos na semana seguinte para Catalão, um lugar de confronto.  Depois daquela experiência nenhum de nós foi o mesmo.

A viagem

Embarcamos no voo do Rio de Janeiro direto para o Paraná.  Lá pegaríamos um ônibus que nos levaria à Cascavel, cidade próxima a Catalão. No avião eu conversava com Érick, o menino de 20 anos, e constatei a tamanha inteligência que Deus lhe dera.  Dizia-me como conheceu o meu pastor.  Pertencia a um Ministério chamado Fonte de Água Viva, sede na cidade de Minas Gerais e filial no Rio de Janeiro, na zona norte. Quando meu pastor esteve pregando na sua igreja, ele imediatamente lembrou-se da revelação que Deus lhe dera: Um homem com as características do mesmo pastor financiaria a primeira viagem missionária do pequeno e corajoso pregador.  Não foi preciso se apresentar. No meio da pregação meu pastou o enxergou entre trinta jovens e o chamou.  Disse que Deus aquela noite estava preparando uma viagem para ele em missão, da mesma forma que fora profetizado meses atrás por outros profetas de Deus.
O próprio pastor profetizava, reforçava a revelação e nem sabia que era através do Ministério Portas Abertas que se cumpriria a profecia. Erick me contava tudo maravilhado, extasiado com os planos perfeitos de Deus. 
Eu lhe perguntei se tinha noção do lugar para onde estava indo. Ele sorriu meigamente e disse:  “Não faço ideia, mas não importa, sei que Deus está no  controle de tudo.”
Não esbocei sequer um sorriso, embora meu coração tenha se alegrado com as suas palavras. No fundo eu sabia que Deus havia escolhido as pessoas certas para aquela missão, só não tinha certeza se era eu a pessoa ideal para liderar aquela Caravana.  Não tinha os critérios de Moisés, Elias, nem Josué, mas algo Deus tinha visto em mim.  Na verdade eu era corajoso, destemido.  Isto era inegável.  Agora a enfrentar Catalão, era loucura.
Saímos do Rio às nove horas da manhã.  Quando ia dá dez horas um forte vendo começou balançar o avião.  Da janela víamos uma nuvem negra tomar conta do céu e o pavor encheu os olhos de todos os passageiros quando o avião começou a balançar sem parar.  Jogaram máscaras para nós e o anúncio do piloto dizia: “Estamos em turbulência, permaneçam em seus assentos. Ponham as máscaras e logo, logo tudo ficará bem”.
Começamos a orar. Repreendemos aquela tempestade da qual sabíamos que era advinda das forças malignas para nos impedir de chegar a Catalão.  Cessou depois de alguns minutos. O céu podia ser visto agora azul com nuvens brancas. Olhamos-nos e compreendemos, sem dizer nada um para o outro, que aquela missão era perigosa.  Nossa caravana, porém, estava disposta a correr o risco e enfrentar os perigos espirituais daquele lugar. Após algumas horas, enfim, chegamos ao Paraná. E ali nossa viagem estava apenas começando.

Um terror na noite

Descemos em Curitiba às 14 horas. Seguimos direto para a rodoviária para embarcarmos no ônibus para Cascavel.  André esbarrou nas malas de Beatriz e foi parar no chão. Quase não levantou de tanto rir. Beatriz docemente lhe estendeu a mão. Ele, então, aos risos, levantou-se e pediu desculpas.
“Só não pode cair na fé irmão”, disse Edna e seguiu séria para o ônibus que nos esperava.
Retiramos as passagens dos bolsos, malas ou mochilas cada um com a sua na mão e entregamos ao cobrador.   Sentei ao lado de Ana Beatriz desta vez.   Seu sorriso meigo me fazia acreditar que nossa missão não seria tão penosa assim, mas viriam momentos de alegria e conforto daqueles irmãos que Deus tinha escolhido para entregar aquele lugar aos céus.
Adrielle ria ao lado de André, talvez por alguma piada que contara. Durante as quatro horas de viagem de Curitiba a Cascavel eu vi Adrielle fechar o semblante uma vez ao me olhar, para depois abrir aquele sorriso sincero e cheio de carinho que só ela tinha. Ao me encarar, ela sentia uma timidez que a deixava de bochechas vermelhas e abaixava o olhar como que fazendo charme, depois me seduzia de uma maneira interessante e eu não resistia.
Ao se aproximar da cidade de Irati, o ônibus parou de funcionar. O motorista, visivelmente descrente, mal pôde conter a raiva ao perceber que o tanque de gasolina estava vazio.
“Mas acabei de encher o tanque. Não é possível que tenha acabado assim tão rápido. Deve haver algum vazamento.” Desceu do ônibus para verificar se tinha algum problema.  Confirmou o vazamento.  Assustadoramente o tanque tinha sido danificado.  Vazava gasolina desde a saída de Curitiba e estávamos no meio do nada.  Mato para todos os lados e nem sombra de algum carro, ou qualquer outro transporte coletivo para pedir ajuda.  Era fim de tarde, exatamente quinze para as seis.
O motorista mostrou-se meio tenso e explicou que o tanque estava vazio. Não havia como continuar a viagem. Esperaríamos ajuda ou amanhecer o dia para ele fazer o trajeto de volta a pé pra buscar socorro.  Alguém dentro do ônibus questionou que ele deveria ter trago uma reserva de gasolina. Mas ele retrucou que não havia necessidade.  O trajeto era curto, sem a necessidade de gastar tanta gasolina.  Ia e voltava sempre com a mesma quantidade.   Nunca acontecera nada parecido.
Não entendemos a principio por que o motorista se mostrava tão tenso, falava rápido, gaguejando. Olhava para os lados com medo de alguma coisa.
Uma senhora de idade, sentada no fundo do ônibus, coberta por um lençol grosso e uma túnica na cabeça, parecia se proteger, não do frio, mas de algum perigo.  Um velho se levantou do seu banco, veio até mim, de olhos fixos nos meus, balbuciou alguma coisa no caminho, disse bem próximo do meu rosto – pude perceber seu hálito de álcool – que deveríamos nos cobrir. O corpo todo deveria ficar coberto, principalmente a cabeça, pois os olhos não veriam o terror que a noite traria.
Não demos muita importância ao que disse, pois os moradores daquele lugar viviam de contar histórias macabras, lendas e mitos.  O velho voltou para seu lugar, mancando da perna direita. Ao sentar, nos olhou como que dizendo: “Não acreditam, então vejam com seus próprios olhos”.
Olhei pela janela do ônibus e percebi que a noite chegara.  Rugidos, uivos de lobos soaram da mata.  André riu. “Caramba! Acho que o velho falava sério.” Depois discorreu sobre uma ilha na Ásia em que os lobos devoravam gente.  Adrielle riu: “Nossa como você fantasia André”.
Ficamos conversando e evangelizando os poucos passageiros do ônibus, inclusive o motorista, que não disfarçava o medo.  André se divertia com as histórias do velho e dizia que a bíblia nos recomendava não temer.  Inclusive entregou-lhe uma bíblia novinha, da qual ele fez pouco caso, pois não sabia ler, mas guardou na bolsa de plástico ao lado do seu assento.
Pedi permissão ao motorista e aos passageiros para louvar. Entoamos “Entra na minha casa”, do cantor evangélico Régis Danese, canção famosa no Rio de Janeiro.  As pessoas pareceram gostar.  André tocava o violão animado e sorrindo como sempre, com aquele brilho encantador que só ele tinha.
De repente um solavanco no ônibus nos fez parar.  Todos se olhavam e o motorista se encolheu num canto amedrontado. Continuamos o louvor.  Outro solavanco. Paramos. A velhinha, encolhida no fundo no ônibus, disse que era melhor parar. Mas iniciamos novamente o louvor.  Outro solavanco mais forte pareceu mover o ônibus do lugar.  Edna bateu a testa na janela de vidro.  Ana ralhou o joelho na parte de ferro do assento. Eu bati as costas no banco de trás e não me machuquei, mas porque me segurei.
De todos os lados apareceram feras negras de dentes longos e fortes.  O pavor tomou conta de todos. Os olhos avermelhados dos monstros pediam sangue.  Descia das suas bocas uma baba branca e nojenta. As patas alcançavam as janelas e percebemos as unhas grandes e afiadas.
Adrielle tremia. Seus olhos demonstravam um medo terrível.  Nunca nenhum de nós havia visto algo parecido assim ao vivo e em cores. Não eram cães, nem gatos, nem lobos. Eram demônios.  Rostos como humanos, mas animalescos.  Pele negra com epiderme meio humana.
Era só o início de todo o pavor pelo qual passaríamos.

A primeira luta

As feras tinham uma força assustadora.  Cravaram as unhas nas janelas quase a adentrar o ônibus.  Rangiam, desejavam nosso sangue. Jogávamos as malas, bolsas e outros objetos junto da porta para impedirem de entrar.  As janelas não abriam, eram vidros fechados, mas parecia que as feras a atravessariam a qualquer momento. Demos as mãos.  Iniciamos uma oração.
 “Senhor, nosso Deus.” Comecei, “Sabemos que as forças do mal imperam sobre a região de Catalão. Querem nos impedir de seguir nosso caminho e lutar contra eles, pois sabem que aquele lugar não será mais chamado de a Terra do Medo. Envie agora, sete anjos poderosos, entre eles o guerreiro Miguel, para derrotar o principal desses demônios e destroná-lo, para que se vão todos e nos deixem em paz”.
Uma fera com cara de leão deu um salto e pulou por cima do ônibus.  Com as mãos parecidas com mão humanas, de garras enormes, puxou o tampão localizado acima e já ia nos ferir.  Todos arregalaram os olhos e vimos o céu reluzir uma forte luz branca e Miguel puxou a fera, jogou-a contra o chão. Iniciou-se uma luta travada entre os dois. O anjo rasgava a espada à frente da fera e a distanciava do ônibus.  Mais seis anjos voavam ao redor do veículo lançando flechas contra as bestas, que corriam desesperadas.  Em cinco minutos de combate, as feras desapareceram. O imperador delas foi dilacerado pela espada de Miguel no meio da mata.
Os seis anjos subiram e Miguel os seguiu.  Adrielle olhou pela janela e me disse que havia dois homens altos, de mais ou menos três metros de altura, ao lado do ônibus.  “Quem são eles?” Érick perguntou.
Edna se adiantou: “Eles são os nossos guardiões.  Estavam o tempo todo ali.  Aliás é por isso que estamos vivos.
De todos nós, Érick e Adrielle eram os únicos que ainda não tinham vivido experiências sobrenaturais como aquela, por isso a surpresa com todo o acontecimento.  Os passageiros assustados procuravam entender a situação ocorrida.  Presenciaram extasiados toda a cena. 
Depois do susto, reiniciamos o louvor e fizemos uma vigília no ônibus. Ao final fizemos o apelo e seis almas de dez passageiros se converteram, entre elas o motorista e o senhor que conversava com André.
No dia seguinte apareceu um caminhão de carga. Ofereceu ajuda.  Seguimos viagem no caminhão. À tarde desembarcamos em Cascavel.  Um senhor barbudo, muito simpático, sorriu para nós e pediu para subirmos na caçamba da velha caminhonete.  Disse que eu podia ficar com ele na cabine.  Rejeitei e fui com os outros na caçamba louvando e gritando glórias para o Senhor.  Estávamos felizes, pois o Senhor estava conosco.  Sabíamos que ainda teria muita luta, mas críamos que a vitória era nossa.  A sétima Caravana estava disposta a enfrentar e vencer as forças que imperavam em Catalão.

Personagens Estranhos

Havia uma ponte feita de trilhos de ferro, caminho único para seguir a viagem.  O senhor que dirigia, parou bruscamente e quase nos fez voar longe.  Olhamos para frente e percebemos o motivo da freada brusca.  Dois meninos de cabeças grandes, olhos esbugalhados e cabelos espetados para cima estavam parados com latinhas nas mãos.  As latas estavam pretas, sujas de carvão, pareceu-me.  Balançavam as latinhas e dentro ouvia-se um som de moedas se batendo.  Ao lado deles alguém que parecia ser a mãe, fazia o mesmo movimento com sua latinha.  Era uma mulher terrivelmente feia, corcunda, pele enrugada. Suas roupas rasgadas, sujas e os pés nus no chão.  Olhavam-nos com olhos ocultos, inexplicáveis. Não havia vida neles, pareciam mortos.  Víamos seus dentes podres quando abriam os lábios ao enrugar o rosto por causa da luz do sol – Impressionante o calor que fazia às três horas da tarde – Surpreendemo-nos ao ver seus pés nos trilhos de ferro completamente nus. Deviam queimar como fogo.
Ana sentiu dó ao ver os meninos naquele estado.  Preparou-se para descer, mas o senhor gritou do carro: “Não, não saia do carro.” Beatriz se chateou e contestou com ele: “Como o senhor não quer que eu saia? Viemos aqui para ajudar as pessoas deste lugar. Vou descer e conversar com esses meninos e essa senhora que parecem precisar de ajuda.”
Ele esbravejou: Eu disse que não vai descer e a senhorita não vai.  Não está vendo que não são humanos?”
Ana me olhou surpresa e perguntou: “O que ele quer dizer? Encarei-a e não respondi. Se acomodou novamente no seu lugar e pressionou a mão de Adrielle junto a sua. “Nosso Deus”, suspirou Adrielle.
Ele deu a ré e disse para nos segurarmos. Acelerou a caminhonete e ouvi os gritos das mulheres no carro enquanto ele passava por cima daquelas coisas.  O carro deu três solavancos e por instantes pensei que ele tinha atropelado realmente pessoas normais.  Mas enquanto seguia pela estrada empoeirada vimos que não passavam de seres espirituais, pois haviam desaparecido. 
“Não acreditem em tudo que verem”, gritou ele. “Nem tudo que reluz é ouro, já diz o velho ditado”.
E pelo caminho afora víamos seres exóticos à beira da estrada.  Homens de três metros de altura com a pele branca feito algodão, carregando um corpo de uma criança nos ombros sem nenhum cabelo na cabeça. O rosto estava deformado como uma caveira.  Terrível.  Noutro momento um casal mantinha relações sexuais no caminho, era preciso desviar.  Umas dez crianças corriam pela estrada xingando palavrões.  Ficaram ao nosso redor nos amaldiçoando.  Desapareceram, misteriosamente no meio da poeira.
Olhei para Adrielle, ela chorava.  Todos os outros oravam fervorosamente.  Beatriz ainda segurava sua mão e orava por ela.  Meu coração doeu.  Eu acabava de casar e estava levando minha esposa para a prova mais difícil de sua vida.  Senti-me um pouco culpado. Talvez se tivesse aceitado o convite do pastor um ano antes de me casar, não estava vendo a mulher da minha vida sofrer daquele jeito.  Mas era o preço que pagaria por ter adiado minha missão, e agora Adrielle sofreria comigo o que eu deveria sofrer sozinho. Mas ela sabia de tudo.  Sabia que me casei porque a amava, rejeitando um chamado de Deus e quando a pedi em namoro contei sobre Catalão e a missão que me aguardava. Ela não me rejeitou e disse que passaria comigo o que fosse, porque tinha a certeza da verdade do nosso amor.  Deus nos uniu para sermos um só. O que eu sofresse ela sofreria.
Abaixei-me a sua frente e lhe abracei.  Sussurrou no meu ouvido que estava com medo.   Abracei  mais forte e disse: Não temas.
Caí para trás.  Adrielle por cima de mim. Ana e Edna bateram as costas violentamente contra a grade da caçamba.  Érick e André voaram por cima da cabine. Outra freada brusca?  Não. Uma mulher havia parado o carro com a própria mão.  Ouvimos os pneus de trás, acelerados, varrerem o chão e chegar a furá-lo.  Mas a caminhonete não saiu do lugar e parou de funcionar.
Os olhos daquela mulher estavam vermelhos da cor de sangue.  Seus cabelos encaracolados e longos pareciam um capacete protetor.  Na boca um vermelho vivo, lábios grossos.  A pele era branca e suave, mas o rosto desfigurado.
Víamos sua mão direita voltada para a caminhonete com as unhas grandes, pintadas de vermelho. Ventava um pouco. O seu vestido longo, preto esvoaçava e parecia mais uma cena de filme de terror.
Desta vez eu me surpreendi.  Aos vinte e seis anos nunca presenciara uma mulher parar uma caminhonete – com sete pessoas e muitas bagagens – com a mão.  E outra, sem tocar o carro.
Sua voz brava, meio andrógena, soou macabra aos nossos ouvidos: “Suas presenças não são bem-vindas neste lugar. Já temos pessoas suficientes cuidando de Catalão. Sugiro que voltem para suas casas”, disse.
Um vento estranho começou nos rodear.  Formavam-se redemoinhos em volta do carro.  Ela continuou: “apressem-se para voltar, pois não toleraremos suas orações e louvores. Estamos desfazendo muitos de vocês por aqui. Em breve não restará um. Vão embora.”
Naquele momento, sem querer me mostrar fraco, pensei em abandonar a missão e voltar para casa.  Continuar pregando para pessoas normais, sem poderes.  Era mais fácil.  Porém os olhares de todos, embora temerosos, não demonstravam fraqueza.


                                                                                                                         O.V. (2012)

Carnaval


Eis que chega o carnaval
Que tal mudar de assunto?
Esqueçam a crise
Dancem, pulem e bebam
Se matem se puder.

Não economizem
Nos beijos, esbaldem camisinhas
Meninos e meninas
Podem ser grandes ou pequenos
Deixem a carne lhes vender

Vender o seu corpo
A sua alma, matar o seu desejo
Afinal é carnaval
Pode se vender tudo
e beber o dia inteiro.

Bebendo não se vê crise
Não se sabe o que acontece
Não dá panos pra mangas
Tudo acaba em PIZZA
Que delicia!

Enquanto as escolas desfilam
O dinheiro se desvia
Enquanto se canta o samba enredo
O menino chora triste
Debaixo do viaduto
Com a barriga vazia.

E vamos que vamos!
Que o bloco vai passar !
Só não passa essa crise
Que um dia vai nos ferrar
Mas enquanto não nos ferra
Vamos festejar!

Classe A no camarote
Classe B no auditório
Classe C na TV
Classe D não dá pra  
Classe E procura o que comer...

O. V.  19 de fevereiro de 2009.




Borboleta



Eu sou uma borboleta.
Eu queria saber
Se era possível eu me apaixonar
Por uma lagarta
Sem me perder por ela

Será que seria possível
Eu estar num casulo
E amá-la de verdade
Sem que fosse
Lascado junto com a árvore?

Sou apenas uma borboleta
Que ama a ponto de se deixar
Levar para dentro de uma prisão,
Que seja amarrada
As voltas com o amor de sua vida.

Não sou louca, não sou.
Sou apaixonada.
Completamente amarrada
Pelo corpo mole e frouxo
Desta lagarta bebê.

Será minha borboleta
Para sempre.
Enquanto está como lagarta
Estarei ao seu lado
Em nenhum momento a deixarei sozinha.

Não pode fugir
Está envergada
Nesta casca dura demais.
Incapaz de sair – minha lagartinha –
Por isso ficarei aqui.

Cuidarei dela
Como uma mãe cuida
De seu recém-nascido.
Quisera poder dar-lhe de mamar
Acalentá-la nos braços.

Cuidar como cria
Cuida da sua vida nascida
Ainda vestida de pele de parto,
Como se fosse a própria vida
Nos braços de quem a ama mais.

Seria possível
Que esse amor não me matasse
Estando no enlace,
Deste casulo secreto
D’uma árvore qualquer?

Também não me importa
Morrer,
Pois se viver
E não ter esse amor,
Que valor a vida terá para mim?

Já é possível eu me apaixonar
Por ela.
Que importa se já estou preso
Aqui dentro
Fedendo por tanto escuro e sem luz?

Não me importa.
Estou encasulado
Por todas as partes desta lagarta
Que me agrada,
Movendo-se para me tocar.

Sinto-me dentro de um útero
Materno,
Agasalhado quentinho.
Num aconchego de amor.
E nada me importa.

Importa-me apenas
Seu cheiro de larva,
De moleza,
Beleza futura.
Que me encanta lembrar.

Um futuro do pretérito
Que de certo verei.
E que vejo em lembranças
Do futuro que lhe aguarda.
A vejo – lagartinha – minha!

A pele lisa demais,
O corpo frouxo e fétido
Recostando-me a noite,
À manhã e a tarde.
E as horas extras.

Possível amar uma lagarta
Encasulada,
Que mostra a beleza escondida,
De olhos futuros brilhantes
E boca carnuda?

Com cílios tão lindos
E grandes,
E cheiro de rosa, de sol, de primavera.
De flor, de amor.
De verdade?

-Minha lagartinha – te amo!
Agora sei: Que venham
Cortar-nos ao meio.
Estaremos juntinhos
Onde for que os amantes se encontrem.

Por certo num céu colorido
Cheio de asas cortantes,
De um lado a outro
E no horizonte
Onde ninguém pôde ir.

Minha lagartinha – querida!
Te amo!  Por mais e mais anos de vida.
Quer nasça quer se desfaça em folhagens e sucos
Serei teu amor
Por toda primavera.

E quando voares
Ao vento
Traga um alento ao meu coração,
Cheiros de flores de amor
A bater no meu peito.

Quem se perde, se morre e se revive,
Por ti – lagartinha querida –
Eu que te quero tão bem
E como ninguém,
Te amo demais.


                                                                                                          O. V. em 13 de novembro de 2007.


Reflexões de um mundo



Tão imenso era o mundo
Quando do alto de uma montanha o avistei
Seus laços abertos a todos os homens
Esperando o momento certo
Para dar o bote letal.

Tão imenso era o mundo
Quando sozinho eu me senti
Entre quatro paredes
Jogado, esquecido por ele.
No meu mundo criado
Criado por mim.

Quem era o dono de tudo isso?
De toda essa imensidão?
De quem era essa criação?
Que não cria um criador?
Inexistente na minha sabedoria
Que não cria um criador.

Era preciso criador?
Deus, Jeová – homem superior?
Para comandar homens vulneráveis
Carentes de alguém que os mande
E se guarde
Entre suas asas de protetor?

Deus que não existe?
Vida que se prega.
Longe da realidade
Que nos leva e nos traz
Nesta verdadeira vida.

Superioridade espacial
A léguas das dores, das fomes,
Dos choros e desencantos dos homens
Longe da perseverança e fé
De que isso vai mudar
E um dia tudo será melhor.

Prega de vida só pra si
Que não creio, não anseio
E nem perto quero está
Excluindo e diminuindo
Uma dor que não acabará.

Enquanto homens maus mandarem
Destruírem e reinventarem
Modelos humanos de igualdade
Que só faz desigualdade.

                    ****

Observo olhos de amor
Brilhando, sorrindo e me amando.
Querendo me achar no seu mundo
De criança que não conhece
Não entende o profundo
De um mundo que criaram.

Riem, brincam, choram,
Ouço dores aos ouvidos
Reclamo por isso.
Às vezes detesto as gargalhadas
Quando quero o silêncio
De um mundo só meu.

Os seus cheiros de criança
Suadas, que correm, que amam, que sonham.
Cheiros de criança
Nas minhas lembranças.

Que toda criança pode ser
Um filho ou o cheiro dele
Que quer cuidado, carinho e proteção.
Para entender-se no mundo
Que foi criado por ele.

No sorriso tímido
Mas às vezes abeto demais
Quando estou com todos
E com o sangue que é meu.
E até o sorriso perfeito
Ou meu defeito de humano.

Vendo-o de longe,
Perto de mim.
O mundo fora e dentro de mim
Entre mim e com ele
Sem entender seu começo e seu fim.

                                ***

Entre olhares curiosos
De meu sangue remidor
Acordo absorto e contento-me
Com a luz branca do televisor
Enquanto estive dormindo
Estavam ali com carinhos de amor.

Percebo que são meu mundo
Que não quero outro não
Adoro suas gargalhadas,
Suas palhaçadas...

O que quero além de mim mesmo
Neles como eu vivo?
O que quero além de brincar e ser chutado,
Cuspido e amassado?
Sujo de chocolate e doce de coco?

                                ***


Que mundo é esse
Que não existe superior?
Fome, desigualdade e dor?

É mundo utópico ou real?
Precisa de sistema socialista
Revisão da constituição
Reforma institucional
Mudança de líder
Ou conscientização nacional?

Precisa de quê esse mundo?
Preciso pensar...
Quer saber?
Acho que prefiro esquecer

                                                                                                                                           O.V.